Muito é dito sobre médicos...
 

 José Manuel Alves

Muito é dito sobre médicos, enfermeiros e, ainda mais sobre as instituições pelas quais esses profissionais praticam o seu ofício. Uma vasta gama de comentários, por vezes impregnando uma espécie de magia paralela e tendem a rechaçar os seus quotidianos.

Todos os dias notícias vindas da área da saúde pautam informações obtidas por toda a mídia, escrita, falada e televisiva. Ora uma descoberta a mais na escalada rumo à longevidade humana, hora a evolução, pela biociência, contra dores de todos os matizes e intensidades, hora a crítica exacerbada às realizações de procedimentos médico hospitalares e equipas paramédicas.

Como cidadão que sou, é-me obrigatório admitir que, nem sempre os factos elaboram-se de maneira perfeita, afinal, uma sociedade constituída dificilmente consegue ser o modelo sonhado pelos grandes pensadores da humanidade.

Porém, como homem participante de uma comunidade instituída e usuário dos serviços públicos de saúde, tenho de reconhecer que enormes melhorias podem ser notadas aqui e ali, por todas as vezes em que se fizeram necessárias a mim...
Entretanto, o capítulo mais especial a que quero me dedicar, foi aquele em que ‘ajudei a escrever’ (após lobectomia superior direita em Fevereiro de 2004) ou, aquele em que tive a honra dolorosa de ser um dos milhares de ‘actores-coadjuvantes’ (baixa em 27 de Dezembro 2004, com Derrame Pleural base direita e respectiva Toracotomia para drenagem a 6 de Janeiro). Infelizmente, neste ‘mister’, poucos são, ainda, os registos feitos nas Escolas de Medicina, pesarosamente, nesta vertente, poucos, ou quase que nulos, são os artigos jornalísticos divulgados pela mídia. Esta parte diz respeito a uma forma de Missão Emocional à qual pouco se ocupam tanto uma instituição quanto outra. O difícil mecanismo e a exaustiva dinâmica do ‘fazer por amor’, da abnegação diária sem hora de terminar, de todos os profissionais que se dedicam à Medicina e a todos os que trabalham nos seus demais campos de actuação.

Pessoas – como todas as outras – que, relegando a planos secundários as suas próprias vidas, os seus problemas, algumas vezes até as suas dores, doam-se de forma brilhante e essencial ao restabelecimento de cada paciente. A fraternidade com que caminham entre os leitos de, senão de dores, de imensas preocupações com o momento próximo a ser vivido, é de uma dignidade humana de venerar.

Quantas vezes, aqueles rostos, aqueles corações, aqueles dedicados ‘doutores da solidariedade - seres de uma ‘casta’ evoluída dedicando-se a uma espécie de dupla ‘profissão de fé’, ‘exilar’ os males do corpo físico e ‘resgatar’ a paz de espírito daqueles que são quase que ‘retornados’ à vida, através das suas condutas médicas – em um largo sorriso, em um olhar condescendente, ou em um subjectivo gesto de ‘estamos juntos nisto’; é vital que se ‘diga/bendiga’ sobre a assumida postura ‘terapêutico-sacerdotal’ dos Doutores, Pais Ruivo (Pneumologista) e Sena Lino (Cirurgião), segundo os 90 anos de minha mãe, são os meus "Anjos da Guarda", que, para além das decisões médicas, receitam vida, ânimo e certeza, em doses de amor ao próximo e sapiência, no caos estabelecido na essência humana pelas doenças, de que, a cada dia há um amanhecer diferente e, a cada momento, a cada turno, a cada procedimento feito é a vida quem está a ser incentivada a restabelecer-se. Em suma, seres “iluminados”, pessoas de bem com a Vida!

Na ordem de nós, humanos, há somente duas possibilidades de estabelecer-se laços afectivos: na dor e na alegria e, justamente neste ambiente, via de regra, de sofrimento, acham-se ‘mescladas’ com uma força veloz e surpreendente ambas condições. É no “vai e vem” de macas entre sectores de diagnósticos, é na transferência de um pavilhão a outro, é na administração de medicamentos nas horas em que as dores fazem viver o minuto seguinte quase uma tortura, é na humildade sublime daqueles paramédicos com o cuidar da higienização e confortabilidade do paciente, é o adentrar, um dia após o outro, nos quartos e ser mensageiro ‘de boas novas': a recuperação avizinha-se!
Eu, o ser humano assustado, inseguro diante de um surpreendente e nebuloso diagnóstico, que deu entrada no Hospital São Francisco Xavier, na manhã do dia 27 de Dezembro/2004; quero aqui, não agradecer, porque o que se passou naquele momento crucial da minha vida e por todos os 29 dias seguintes, é impossível de ser reunido em simples palavras ou, por quaisquer menções, por mais honrosas que pudesse eu dispor...

Prefiro deixar a todos (como que para não cometer injustiças nenhumas!), às vezes rostos sem nomes, mas corações únicos. Sejam eles, da Instituição Hospitalar, da Equipa de Cirurgia que me acompanhou, da Imagiologia (grande espírito de equipa!), do Laboratório de Análises Clínicas, da Unidade de Cuidados Intensivos, de todos os profissionais de Enfermagem da Medicina do 1º piso, na pessoa do Enfermeiro-Chefe João, da Dra. Cristina (Assistente do Dr. Pais Ruivo), sempre presente e um “xi” muito especial à Dra. Rita Perez (Anestesista) pela segurança que me transmitiu. Um olhar silencioso e eternamente enternecido, sabendo e deixando a certeza de que todos vós também o sabem que, após este episódio, estaremos, eu e todos aqueles que empurraram-me à ‘vitória’, entrelaçados como elos: um conjunto de força inquebrantável para uma verdadeira e maravilhosa ‘corrente para a vida’!

José Manuel Gonçalves Alves
Director do www.gastronomias.com / Roteiro Gastronómico de Portugal
Grão-Mestre da Confraria dos Gastrónomos do Algarve
Vice-Presidente do CEUCO-Conselhgo Europeu de Confrarias e Membro do Conselho Magistral

Lisboa, 30/01/2005


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