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Muito é dito sobre médicos...
Muito é dito sobre médicos, enfermeiros e, ainda mais sobre as
instituições pelas quais esses profissionais praticam o seu
ofício...uma vasta gama de comentários, por vezes impregnando uma
espécie de magia paralela a esses, tendem a rechaçar os seus
quotidianos.
Todos os dias notícias vindas da área da saúde pautam informações
obtidas por toda a mídia... escrita, falada e televisiva: ora uma
descoberta a mais na escalada rumo à longevidade humana...hora a
evolução, pela bio ciência, contra dores de todos os matizes e
intensidades...hora a crítica exacerbada às realizações de
procedimentos médico hospitalares e equipas paramédicas...
Como cidadão que sou, é-me obrigatório admitir que, nem sempre os
factos elaboram-se de maneira perfeita...afinal, uma sociedade
constituída dificilmente consegue ser o modelo sonhado pelos grandes
pensadores da humanidade...
Porém, como homem participante de uma comunidade instituída e usuário
dos serviços públicos de saúde, tenho de reconhecer que enormes
melhorias podem ser notadas aqui e ali, por todas as vezes em que se
fazem necessárias a mim...
Entretanto, o capítulo mais especial a que quero me dedicar, foi
aquele em que ‘ajudei a escrever’ (após lobectomia superior direita em
Fevereiro de 2004)…ou, aquele em que tive a honra dolorosa de ser um
dos milhares de ‘actores-coadjuvantes’ (baixa em 27 de Dezembro 2004,
com Derrame Pleural base direita e respectiva Toracotomia para
drenagem a 6 de Janeiro)...infelizmente, neste ‘mister’, poucos são,
ainda, os registos feitos nas Escolas de Medicina...pesarosamente,
nesta vertente, poucos, ou quase que nulos, são os artigos
jornalísticos divulgados pela mídia... Esta parte diz respeito a uma
forma de Missão Emocional...à qual pouco se ocupam tanto uma
instituição quanto outra: o difícil mecanismo e a exaustiva dinâmica
do ‘fazer por amor’, da abnegação diária sem hora de terminar, de
todos os profissionais que se dedicam à Medicina e a todos os que
trabalham nos seus demais campos de actuação...
Pessoas – como todas as outras – que, relegando a planos secundários
as suas próprias vidas, os seus problemas, algumas vezes até as suas
dores; doam-se de forma brilhante e essencial ao restabelecimento de
cada paciente...a fraternidade com que caminham entre os leitos de,
senão de dores, de imensas preocupações com o momento próximo a ser
vivido; é de uma dignidade humana de venerar...
Quantas vezes, aqueles rostos, aqueles corações, aqueles dedicados
‘doutores da solidariedade - seres de uma ‘casta’ evoluída
dedicando-se a uma espécie de dupla ‘profissão de fé’: ‘exilar’ os
males do corpo físico e ‘resgatar’ a paz de espírito daqueles que são
quase que ‘retornados’ à vida, através das suas condutas médicas... –
em um largo sorriso...em um olhar condescendente...ou em um subjectivo
gesto de ‘estamos juntos nisto’, é vital que se ‘diga/bendiga’ sobre a
assumida postura ‘terapêutico-sacerdotal’ dos Doutores, Pais Ruivo (Pneumologista)
e Sena Lino (Cirurgião), segundo os 90 anos de minha mãe, são os meus
"Anjos da Guarda"...que, para além das decisões médicas, receitam
vida, ânimo e certeza, em doses de amor ao próximo e sapiência, no
caos estabelecido na essência humana pelas doenças, de que, a cada dia
há um amanhecer diferente...e, a cada momento, a cada turno, a cada
procedimento feito...é a vida quem está a ser incentivada a
restabelecer-se... em suma, seres “iluminados”, pessoas de bem com a
Vida!
Na ordem de nós, humanos, há somente duas possibilidades de
estabelecer-se laços afectivos: na dor e na alegria...e, justamente
neste ambiente, via de regra, de sofrimento; acham-se ‘mescladas’ com
uma força veloz e surpreendente, ambas condições: é no “vai e vem” de
macas entre sectores de diagnósticos...é na transferência de um
pavilhão a outro...é na administração de medicamentos nas horas em que
as dores fazem viver o minuto seguinte quase uma tortura...é na
humildade sublime daqueles paramédicos com o cuidar da higienização e
confortabilidade do paciente...é o adentrar, um dia após o outro, nos
quartos e ser mensageiro ‘de boas novas': a recuperação avizinha-se!
Eu, o ser humano assustado, inseguro diante de um surpreendente e
nebuloso diagnóstico, que deu entrada no Hospital São Francisco
Xavier, na manhã do dia 27 de Dezembro/2004, quero aqui...não
agradecer, porque o que se passou naquele momento crucial da minha
vida e por todos os 29 dias seguintes, é impossível de ser reunido em
simples palavras...ou, por quaisquer menções...por mais honrosas que
pudesse eu dispor...
Prefiro deixar a todos (como que para não cometer injustiças
nenhumas!), às vezes rostos sem nomes, mas corações únicos...sejam
eles: da Instituição Hospitalar, da Equipa de Cirurgia que me
acompanhou, da Imagiologia (grande espírito de equipa!), do
Laboratório de Análises Clínicas, da Unidade de Cuidados Intensivos,
de todos os profissionais de Enfermagem da Medicina do 1º piso, na
pessoa do Enfermeiro-Chefe João, da Dra. Cristina (Assistente do Dr.
Pais Ruivo), sempre presente e um “xi” muito especial à Dra. Rita Perez (Anestesista) pela segurança que me transmitiu, um olhar
silencioso e eternamente enternecido...sabendo e deixando a certeza de
que todos vós também o sabem que, após este episódio, estaremos, eu e
todos aqueles que empurraram-me à ‘vitória’, entrelaçados como elos:
um conjunto de força inquebrantável para uma verdadeira e maravilhosa
‘corrente para a vida’!
José Manuel Gonçalves Alves
webmaster do www.gastronomias.com
Calçada da Tapada, 163 A
1300-542 Lisboa
phone + 351 21 365 81 39
Roteiro Gastronómico de Portugal, 30/01/2005
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