Identidade e escolha alimentar
 

 Renato Mafra

A identidade é uma categoria extremamente multi-facetada dentro das Ciências Humanas e Sociais, pois ela pode ser abordada relacionando-a com a questão de género, muitos a definem a partir da religião que professam, pode ser construída, e geralmente o é, com a contribuição da actividade profissional que uma pessoa exerce, está intimamente ligada a etnia a qual pertencemos, o que jÇ inclui uma série de outras categorias tais como língua, costumes, etc. Trata-se portanto de um conceito bastante amplo e abrangente, trabalhado pela Psicologia, Sociologia, Antropologia e outras Áreas afins.
Porém um aspecto da construção da identidade social do ser humano pouco explorado, e que muitas vezes nem nos damos conta, e que é bastante presente na cultura ocidental, está relacionado com as escolhas alimentares que fazemos. Talvez influenciados pelo velho axioma de que "somos o que comemos" passamos a estabelecer uma relação, mesmo que inconsciente, entre identidade social e alimentação.

Podemos iniciar nosso assunto considerando primeiramente as distinções de camadas sociais que são representadas por determinados tipos de comidas. Sabemos muito bem que existe a comida da classe A e a comida da classe Z, que a marmita é tradicionalmente a forma de alimentação da classe operária, pois faz suas refeições no local de trabalho.
Podemos constatar, em nosso dia-a-dia, que aqueles que são adeptos do vegetarianismo e que portanto não fazem uso em sua alimentação, de nenhuma espécie de carne, muitas vezes associam seu estilo de vida, e portanto sua identidade social, a uma determinada filosofia que preceitua a abstinência de carnes. Como exemplo, citamos algumas tradições religiosas de origem indiana onde têm-se a vaca como animal sagrado e os adeptos destas tradições alimentam-se única e exclusivamente de vegetais, além de grãos e frutas.

Há ainda os macrobióticos, que dão preferência aos grãos.
E também existem aqueles que são "assumidamente" carnívoros, chegando a afirmarem alguns mais "radicais" que os homens que não comem carne tornam-se frouxos e fracos, estabelecendo-se aí uma relação bastante evidente e explícita entre a identidade de género e opções alimentares, pois os "radicais carnívoros" acreditam que homem que é homem come carne, inclusive no duplo sentido que esta frase recebe em nossa cultura brasileira. Entendeu?

Recentemente estava no shopping center, mais precisamente na praça de alimentação de um shopping com minha filha de 16 anos e minha namorada. Cada qual fez uma opção diferente entre as "muitas" que existem nestes ambientes. Quando nos sentamos para comer percebi como as opções que cada um de nós havia feito estava, digamos indiretamente, relacionada com o estilo de vida e a identidade de cada um. Minha filha adolescente estava comendo um bom e velho chesse-qualquer coisa de uma famosa rede de fastfood internacional. A minha namorada optou por um lanche diet, composto de um sanduíche natural e um suco de fruta, afinal de contas toda mulher "moderna" que se preza está de dieta, e portanto os lanches light caem muito bem. Eu optei por akisoba??, pois nunca havia experimentado um dentro de um shopping e como estou sempre querendo descobrir coisas novas...

Citando a opção light que minha namorada fez lembrei-me que recentemente, março de 2002, foi publicado nos jornais de circulação nacional uma frase da actriz Carolina Ferraz onde ela dizia que precisava "fazer uma plástica s× para ter assunto", em uma alusão a obsessão por todos os tipos de cirurgias plásticas que assistimos nos dias de hoje, uma verdadeira febre em torno da estética corporal. Em se falando de construção de identidade, escolhas alimentares e estilo de vida, podemos perceber o quanto as mulheres consideram importante que se esteja fazendo uma dieta, precisando perder no mínimo dois quilos, o que faz com que as opções alimentares sejam sempre por refeições leves, rápidas e fáceis.
Ou você vai me dizer que já viu uma socialite de primeira assumir sua gula em plena churrascaria rodízio?

Para aqueles que como eu sentem prazer de preparar durante as vezes por horas um jantar, de comer de tudo sem se preocupar com esta palavra que me dá arrepios, que tenho até dificuldade de escrevê-la, estou titubeante diante do teclado, aquela sabe? que comia com cal..., calorias, sabem o quanto é chato esta onda, que já vem de tempos, sobre o controle das tais calorias.

Para "comprovar" algumas das ideias que estamos expondo, você caro leitor curioso, poderá a partir de agora, se é que nunca fez isto em sua vida, perceber e observar como as pessoas próximas de você, ou não tão próximas, relacionam suas identidades com seus respectivos hábitos alimentares. Talvez você descubra certas novidades acerca das pessoas que lhes são familiares.
                                                              
Renato Mafra *

* O Autor é Cientista Social e mestrado em Antropologia pela Universidade Federal de Santa Catarina, além de interessado pela Gastronomia


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