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"O sol despede-se lentamente nos dias cada vez
mais breves de finais de Setembro. Esmaecem os
doirados cabelos de Apolo. E as vinhas, os
milheirais, os grandes plátanos dos jardins das
cidades amolecem em tons amarelados e
sanguíneos.
É o tempo das colheitas. Das vindimas e da
apanha da fruta. Arrancam-se as batatas dos
lameiros. Debulham-se os cereais. Descasca-se a
amêndoa e secam-se os figos. A terra entrega
generosamente ao homem o resultado do seu
trabalho. Chegam as primeiras chuvas e
despedem-se as aves migratórias. Límpidos
horizontes. O mar, desocupado, exprime agora
toda a brancura das suas ondas. Um cão vadio que
corre atrás das gaivotas. Um par de namorados
sentados na areia da praia. Avança o outono por
Outubro. Desprendem-se as primeiras folhas.
Pelos campos queimam-se as ramas secas. E o fumo
levanta-se numa liturgia final de um ciclo que
se encerra. Terminaram as últimas romarias do
ano. Depois de Nossa Senhora dos remédios de
Lamego, é a Feira das Colheitas em Arouca e S.
Mateus em Viseu. Vem aí Novembro com as
castanhas e o vinho novo. As árvores cada vez
mais despidas. Os insectos entontecidos. E os
primeiros frios de uma noite que se torna mais
longa e ávida.
Revolvemos os armários em busca de roupa quente.
O sono aumenta. Depois das beladonas, florescem
os crisântemos e acorremos ao cemitério para
recordar os nossos mortos. Chove muito. E
lembro-me muito de ti ao cair da tarde. Não
consigo evita este roxo, esta ansiedade, este
advento que me conduz a Dezembro e ao nascimento
de uma luz que auguramos desde o princípio do
mundo.
Deslizamos por Outono docemente e na verdade
esta convulsão meteorológica e natural parece
afinar-nos a sensibilidade. Os amanheceres
breves e límpidos, com fiapos de nuvens
avermelhadas atravessados pelo primeiro sol, são
inesquecíveis, como aquela árvore cor de fogo,
hirta e soberana que parecia reunir toda a luz
do entardecer e que eu te pedi que
fotografasses, naquela viagem para o longínquo
norte."
Manuel Hermínio Monteiro (1952-2001)
In site:
http://www.snpcultura.org/umbrais_index.htm
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