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“Não cair em tentação”

 


Esta é talvez uma das expressões mais antigas que conhecemos e aquela que nos coloca no centro das mais intermináveis dúvidas ou certezas. Se por um lado, parece que basta educar um sujeito com base neste alerta, por outro, o resultado dessa transmissão parece perder-se aquando se reconhece o quanto é vago e abrangente o pedido.

No fundo, o fato de nos protegermos das tentações, remete-nos para uma ideia de fazermos boas escolhas e de nos desviarmos do perigo. Os pais e educadores estão carregados de boas intenções quando nos pedem tal postura perante a vida, mas ao longo do tempo, percebemos o quanto isso pode não passar de intenções.

Associada á tentação estão todas as áreas da nossa vida, sendo as mais conhecidas, o desvio das dependências e atos viciantes, a resistência aos excessos alimentares e prejudiciais para a saúde, o cumprimento de uma conduta cívica baseada na inclusão dos outros e de nós mesmos e a capacidade de não aceitar o que não nos pertence.

Entende a filosofia religiosa que, com estes alertas o ser humano mantém uma postura correta e livre de pecados, já que é incapaz de ferir os outros, de trair ou de ser vulnerável à excitação sexual que pode passar para a vulgaridade ou premiscuidade e que faz escolhas pelo “bom caminho”.

Estudos recentes e muito direcionados para o assunto, vêm contrapor esta ilusão de que, basta sabermos do perigo para que consigamos ultrapassar as reais necessidades de que somos alvo, pois os resultados da pesquisa não comprovam este desejo, já que, quanto mais acreditamos que fazemos boas opções e que resistimos “ao mal”, menos construímos essa conduta.

A questão é simples: convencemo-nos de uma força interior que não temos e, caímos em tentação quando menos esperávamos!
Na ótica dos entendidos, quanto mais acreditamos ser resistentes ás tentações, menos nos preparamos para nos defender delas, pelo que a força efetivamente, não é um sinónimo nem de inteligência, nem de boas escolhas na vida.

Se por um lado, o cérebro recebe essa informação, por outro, a fuga permanente das tentações faz com que, numa situação extrema, não tenhamos argumentos ou experiências anteriores para negarmos esses desejos que superam a capacidade mental e a razão.

Isto acontece com alguém que foi educado para a religião e que não pode desejar sexo como prazer. Perante uma situação longe das críticas, o sujeito, liberta-se desses saberes adquiridos e cai mesmo em tentação. Mesmo que se arrependa depois, terá a sensação de que ninguém saberá do sucedido e, logo não será criticado!

O mesmo se passa com os vícios, pois manter uma dependência em segredo traduz não ter vícios! Esta dimensão estende-se também á política e ao mundo dos negócios, em que tudo passa a ser aceite desde que não se torne público, pois o punível é o que se sabe; o que todos chamam de tentação e, não o que sentimos como incorreto.

Esta posição pode explicar as tentações dos sacerdotes que, ao manterem em segredo as suas fragilidades, se sentem livres para exigir aos outros que não entrem “no mau caminho ou no pecado”. Por outro lado, quem assume uma postura humilde perante o que não sabe se pode resistir, naturalmente está a criar defesas daquilo que não quer pensa no assunto e vislumbra as consequências do seu ato.

Ao não querer, não segue esse desejo físico. Perante uma situação de liberdade, recupera os seus medos para evitar as consequências e, mais facilmente resistirá à tentação. O homem que sabe que pode perder a mulher com uma traição, pensa duas vezes e, raramente comete esse ato, mas esse receio é seu; não é transmitido pelos outros como uma regra subjetiva.

Tem os seus motivos para manter a relação e sabe que, uma falha ou fraqueza da sua parte, pode comprometer tudo. Então, investe na sua vida e resiste a essas atitudes, embora pense nelas e nas consequências. O conhecimento do que pode acontecer se cometer um ato irrefletido, previne a sua ação e fá-la perder o interesse quase automaticamente.

O mesmo se passa com os políticos que temem algo e previnem as suas atuações e, pelo contrário, os que mostram segurança e estabilidade e, são os primeiros a cair nas “tentações do poder”.

No mundo dos negócios, não é o gestor convicto de saber tudo e de resistir ás dificuldades, o melhor exemplo de solidez, pois ele será o primeiro a ser “tentado” a entrar noutros caminhos por se convencer de capacidades superiores e de uma auto-estima poderosa. Não tem medo, arrisca sem pensar nas consequências.

O medo é um fator fundamental neste processo se soubermos descodificá-lo; ter receio por saber um resultado previamente, protege-nos de muitos dissabores e tentações, pois este tipo de medo envolve conhecimento e não renúncia por si só.
Se reparar, na vida em geral, as pessoas mais humildes assumem posturas mais corretas, pois temem as represálias, enquanto que os mais fortes de aparência, desafiam o destino e são mais facilmente apanhados pela tentação.

Basta ver o comportamento dos pobres e dos ricos e dos argumentos que ambos utilizam. Ao mesmo tempo, o conceito de pecado já está em descrédito, pois não se conhecem represálias, nem um sentido objetivo. Cada um constrói a sua personalidade a partir das experiências e dissabores, não de orientações difíceis de comprovar e de aplicar.

Se cada um de nós souber o que lhe acontece perante um ato desviante, certamente que pensará duas vezes antes de o cometer. Percebe-se então que a tentação está ligada à justiça e à falta dela nos sistemas, pois entidades superiores não bastam para nos orientar no mundo terreno, nem para evitar pecados!

Resistir ás tentações do mal”, implica analisar as situações, dar espaço ao diálogo e ao entendimento do que se passa, pois nem tudo o que é pecado para uns é para os outros.

Depois, perder algum tempo a aprender, a alargar horizontes, torna-nos mais humildes e dá-nos força de vontade para corrigir o que não gostamos; sem pressões sociais ou outras, pois acima de tudo, o fundamental é o nosso bem-estar e equilíbrio e, isso depende das escolhas que fazemos, da nossa conduta face aos outros e não das fugas inexplicáveis e sem fundamento concreto.

Se tem um projeto de vida, sabe que um crime o pode condenar e desviar do que gosta. Se ama alguém, sabe que deve cuidar dos sentimentos para que não se percam. Se quer trabalhar, o esforço é uma boa opção e, enriquecer, certamente que não depende só do trabalho; pelo menos na maioria das profissões!

Então não vale a pena entrar em tentações desonestas e ficar de mal consigo mesmo, opte sim por escolhas mais seguras e duradouras no tempo! Pensar antes de agir, pode fazer toda a diferença, quando de tentações se trata!

Desconfie de pessoas com um ego grande, pois elas serão as primeiras a cair em tentação e a levá-lo para o abismo! Duvide de facilitismos, pois nem todos temos o mesmo grau de moralidade e, o que deu certo para alguns, pode não dar para si.

Deixe que os outros façam as suas escolhas e orgulhe-se das suas, pois humildemente está a compreender tudo e, não faz porque não quer, afinal: risco não é sinónimo de riqueza, nem cautela um reflexo de burrice!

Miguel Castilho


 


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