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A Tradição em perigo...
O rigor com que a ASAE vem fechando restaurantes, fiscalizando
vendedores de bolas de Berlim e por aí fora, entrando pelos
estabelecimentos de rompante, multando, por isto e por aquilo, com
todo o rigor, leva-nos a reflectir sobre este assunto, sem deixar de
considerar que aquele organismo estatal apenas faz cumprir a
legislação que, vai saindo da Assembleia da República, muitas vezes
como consequência das nossas obrigações na União Europeia.
Estamos no entanto convencidos de que existe demasiada legislação
avulsa, demasiadas obrigações, excessiva complexidade processual, a
ser entendida e aplicada por empresários cuja vocação é a restauração
e não o direito, ultrapassando assim as mais comuns regras de bom
senso. Veja-se a título de exemplo que é possível ser multado por não
ter afixado um letreiro que diga "Proibido vender álcool a menores de
16 anos." (lei) e outro tanto não acontece por não se afixar "Proibido
matar clientes" (lei), situação bem mais digna de nota.
A nossa grande preocupação está, no entanto, em que alguma legislação
vai contra as tradições e a cultura das nossas populações. As cabidelas,
os carapaus alimados, o cabrito, a lebre à caçador, o galo ou mesmo os ovos "caseiros", são
cada vez mais, pela força da lei, substituídos pela realidade
plástica.
Produtos de linha de montagem, criados com recurso a rações de origem
e ingredientes muitas vezes não controlados e confinados ao mínimo
espaço possível, que, substituindo os ingredientes tradicionais, sem
nenhuma vantagem na qualidade gastronómica, transformam estes pratos,
outrora afamados pela sua qualidade e paladar, em simples comida de
circunstância.
O fim destes pratos como os conhecemos e consequente perda do
receituário tradicional, será mais uma machadada nas gastronomias
regionais, na capacidade de servir sabor e saber, a perda de algo mais
que uma simples forma de refeição.
Com isto não queremos dizer que não haja maus restaurantes e
empresários, menos dignos desse nome, que enganam o consumidor. Mas
preocupa-nos a oportunidade e o momento destas fiscalizações, a
indiscriminação, a ausência de bom senso, assim como a legislação
"cega". É este futuro que queremos?
São objectivos de quase todas as Confrarias a promoção da investigação
do património gastronómico, receituário, produtos e cozinha
tradicional, bem como, defenderem e divulgarem a autenticidade da
verdadeira gastronomia, quer a nível regional, nacional ou
internacional.
A Federação e as Confrarias não terão um "papel" importante a
desempenhar? Não estará na hora de assumirem alguma responsabilidade,
dizendo aos responsáveis deste país que não há cultura sem tradição?
Que temos para oferecer um riquíssimo património, onde há hábitos
seculares, tradições ainda vivas e onde a Gastronomia de cada região é
um legado tão precioso que se impõe perseverar?
Julgamos que se impõe romper a inércia e fazer ouvir, a quem de
direito, a voz fundamentada das nossas razões. Estamos disponíveis
para colaborar.
José Manuel Alves
Webmaster do
www.gastronomias.com e
Grão-Mestre da Confraria dos Gastrónomos do Algarve
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