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GASTRONOMIA E SOCIEDADE

A gastronomia de uma região é sempre fruto de um determinado ambiente natural e da cultura própria das comunidades que a habitam e foi sendo caldeada, no decurso dos séculos, pelos recursos disponíveis, pelas necessidades da população e pelas práticas ancestrais de cada sociedade.
As grandes mudanças sociais implicam, por sua vez, alterações profundas nos hábitos e práticas diárias e a gastronomia não foge a esta regra geral das sociedades humanas.
As sociedades modernas, nomeadamente a partir das últimas décadas do século passado, são sociedades altamente competitivas, que se movimentam a um ritmo frenético, em que o homem parece estar numa permanente luta contra o tempo.
Consequência natural destas transformações sociais, a nível da alimentação, são as várias soluções encontradas, entretanto, pelo homem, com o fito de gastar o menos tempo possível a alimentar-se, recorrendo a soluções várias, desde o “comer em pé” ou o “comer qualquer coisa”, sentado a um balcão ou a uma mesa de café, até à opção pela compra de refeições pré-cozinhadas, fabricadas em série, práticas e rápidas, que basta aquecer num forno eléctrico ou no micro-ondas.
Entrámos, assim, no domínio da chamada fast-food, em relação à qual não se pode falar de gastronomia, já que, em bom rigor, visa apenas satisfazer as necessidades alimentares do homem e garantir a sua sobrevivência, faltando-lhes as vertentes da escolha e da degustação, próprias da gastronomia, vertentes a que devemos juntar a arte do fazer, da apresentação e do convívio.

Mas, como todos os fenómenos sociais, a gastronomia não é só consequência de um determinado meio ambiente e de uma determinada realidade social e cultural. A gastronomia também tem implicações sociais várias que influenciam, de forma significativa, as sociedades e os homens, nomeadamente com repercussões directas sobre a sua saúde (“somos aquilo que comemos”) e nas relações que se estabelecem entre eles.
É sobre este segundo aspecto do problema, isto é, sobre as implicações sociais da gastronomia, que gostaria de deixar mais algumas reflexões, necessariamente limitadas e breves, considerando a riqueza e a multiplicidade das facetas que podem ser consideradas.
Antes de mais, quero realçar a importância da gastronomia na família. É, em grande parte, à volta da mesa que se fazem os encontros familiares e se reforça o espírito de coesão e de união das famílias, quer da família nuclear, quer da família alargada. Este é, igualmente, um momento importante para a socialização das crianças, compelidas, desde pequenas, a cumprir as regras sociais vigentes sobre o que comer, como comer e, mais tarde, como fazer, orientações que lhes vão sendo transmitidas pela família, como agente intermediário, por excelência, entre elas e a sociedade.
Constatamos, por outro lado, que os grandes momentos de alegria das famílias e das sociedades são sempre acompanhados de manifestações gastronómicas, como é o caso dos nascimentos, dos baptizados, dos aniversários, dos êxitos escolares, dos casamentos e, de uma maneira geral, de todas as datas festivas e simbólicas das sociedades.
E quem pode ignorar a importância da gastronomia nas relações a dois e na criação de um clima muito próprio de sedução e encantamento que o “jantar a dois” proporciona (em especial, quando foi preparado especificamente para esse momento), com as consequências que a imaginação ou a prática de cada um pode, facilmente, adivinhar…

O último aspecto que queria abordar é o do convívio, sempre presente em todas as manifestações gastronómicas. É conhecida a importância que tem para a nossa saúde e bem-estar a amizade e o convívio com os outros, a alegria e a boa disposição e, enfim, o sentirmo-nos considerados e estimados.
A existência de um bom grupo de amigos e as relações que se cultivam entre eles são, sem dúvida, um meio excelente para aprofundar e desenvolver os factores de satisfação e de realização que referimos atrás. Na criação da coesão e da grande amizade que nasce e se enriquece no seio destes grupos, tem papel determinante a gastronomia.
É, geralmente, à volta da mesa e na escolha, preparação, apresentação e degustação do que se come e do que se bebe que se vão criando e cimentando grandes amizades e os ambientes de sã camaradagem, de franco convívio e alegria, que dão um certo colorido à vida e fortalecem o bem-estar e a saúde de cada um. Este clima pode viver-se, com maior ou menor intensidade, no seio de grupos informais de amigos, que se reúnem periodicamente para almoçar ou jantar, ou de grupos mais formais, como confrarias e tertúlias, que tenham a particularidade de fomentar o convívio e a boa gastronomia, desde a preparação à degustação.

A este propósito, gostaria de lembrar e evocar aqui os meus companheiros de pesca e de grandes jornadas gastronómicas, actividades complementares, que nos permitem momentos de convívio, de partilha e de boa disposição que nos alimentam o corpo e a alma.
Saborear, depois de concluída a pescaria, as bogas ou os carapauzinhos de escabeche do Afonso, as pataniscas ou a perdiz com couve lombarda do Mourão (sem dúvida, o grande gastrónomo deste pequeno grupo), acompanhadas de um tinto, sempre especial, e de um pão regional irresistível, comprado, bem cedo, numa afamada padaria do percurso, é um prazer que só pode ser devidamente avaliado por quem já viveu estas reconfortantes experiências.

Para finalizar, um conselho: coma e beba bem, conviva e “mexa-se…pela sua saúde”.


Joaquim Adriano Botas Castanho*


* Sociólogo. Sócio nº 28 da Confraria da Gastronomia do Ribatejo


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