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A Europa ri-se de nós!!!
Para que se entenda de uma vez por todas – a União Europeia pode estar
louca em querer destruir as culturas locais e toda uma tradição dos
povos, mas, se Portugal assumir uma posição de defesa, essa mesma
União Europeia abre excepções.
Vem isto a propósito da criação, por iniciativa do Partido Socialista,
de um grupo de trabalho na Comissão Parlamentar de Assuntos Económicos
para que fosse efectuado o levantamento dos nossos produtos
tradicionais, para requerer à União Europeia as tais excepções, tão
urgentes e necessárias para que a nossa cultural milenária não acabe
por decreto.
Só que já se passaram quase três meses e o grupo de trabalho, composto
por deputados dos vários partidos, ainda não se reuniu uma única vez.
Porquê? Porque, mais importante do que defender a nossa cultura e as
nossas tradições, para os senhores deputados é saber quem vai
coordenar o grupo de trabalho… Como os deputados do PS e do PSD não se
entendem, a coisa está a expirar o prazo e todos se vão desculpar uns
com os outros, com manifestações de pantominice, porque duvidamos que
saibam alinhavar um discurso coerente e sério para justificar tanto
alheamento.
A isto chama-se analfabetismo político e incompetência. Uma vergonha!
Estão lá para defenderem o povo que os elegeu e nem isso conseguem
fazer. Como querem os partidos que se acredite nos seus
políticos/deputados?
Outros países, como a França, a Itália e a Espanha, por exemplo, não
permitiram que a burocracia e a política de higiene dos europeístas
mandasse para as urtigas as artes tradicionais e os bons produtos
caseiros que os seus povos tão bem sabem confeccionar.
Carlos Petrini, fundador do movimento Slowfood, numa entrevista ao
jornal «Expresso», foi bem claro, quando afirmou que «se os
portugueses querem deitar borda fora um património centenário de
tradições alimentares, são livres de o fazer, mas que se preparem
também para perder o património da sua identidade. E saibam ainda que,
antes deles, a Espanha, a Itália e a França lutaram por manter o seu e
conseguiram-no».
Tem que haver tempo e diálogo, os produtos devem ser analisados um a
um, porque é incompreensível que se exija um queijo curado numa cave
coberta a azulejo, porque dessa forma não ocorrem os processos
microbiológicos necessários para as suas características próprias, ou
que não se utilizem as canas para curar tal produto, por exemplo. O
queijo final não é o mesmo, não tem a mesma qualidade, nem o mesmo
sabor.
Os deputados algarvios já se preocuparam em fazer o levantamento dos
nossos produtos tradicionais? Não, nem estão para aí voltados. Já
pensaram que os alambiques de fabrico de medronho acabaram, levando
consigo os homens que defendiam a serra e produziam um produto quase
único no mundo?
A galinha de cabidela, as açordas que só podem ser feitas com pão de
um dia para o outro, o doce de figo feito manualmente ou até o de
amêndoa, foram extintos por questões fundamentalistas de uma Europa
que muitos já consideram estar louca. E a chouriça caseira? Há alguém
a fabricar com mais higiene do que o próprio consumidor do seu
produto, que fica a curar junto das suas cozinhas tradicionais, nos
fumeiros?
Em Itália, por exemplo, as pessoas revoltaram-se contra a intervenção
policial, foi feita a recolha de um milhão de assinaturas e, hoje, os
produtos tradicionais continuam a ser uma realidade.
Em Portugal, o Partido Socialista, como não coordena o grupo dos
produtos tradicionais, está a trabalhar por conta própria para avançar
com uma proposta de excepção para os chamados pequenos produtores.
Isto não é a mesma coisa que produtos tradicionais. Os deputados das
regiões, se tiverem alguma vergonha na cara, devem revoltar-se no
Parlamento contra esta situação, sob pena de se criar um movimento de
recolha de um abaixo assinado onde ficará demonstrada a incompetência
e a falta de honestidade dos deputados.
Portugal, como os outros países, deve requerer excepções para uma
listagem completa, das suas tradições, dos seus produtos artesanais.
Como é possível afirmar que não faz sentido organizar uma listagem dos
produtos tradicionais, porque ficaria sempre incompleta? Então os
deputados eleitos por cada círculo não poderiam efectuar esse
levantamento? Quem melhor do que as pessoas nas regiões para executar
essa tarefa?
Esperávamos este desfecho. A parolice, a mesquinhez, a pequenez dos
servidores da política é por demais evidente. Portugal caminha de
rastos, numa subserviência que nos envergonha e nos atira para a
classe dos analfabéticos. A Europa ri-se de nós!
Helder Nunes - 30/04/2008
Director do
Jornal Barlavento
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