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Entrudo no Alto Minho / O Pai Velho no Lindoso
Entrudo e Carnaval são duas palavras com etimologias diferentes mas
significando este mesmo periodo que vai desde o Domingo da
Septuagésima até à Quarta - Feira de Cinzas.
Entrudo, deriva do latim (introitus) significando "entrada" ou começo
do ano, da primavera ou, mesmo, da entrada da Quaresma.
As interpretações, dentro da tradição romana remontam às Saturnalias,
festas em honra de Saturno cujos ritos e cerimonias tinham como
objectivo despertar do novo ciclo da Mãe / Natureza; às Lupercalias,
que se celebravam ao redor do 15 de Fevereiro, assegurando a
fecundidade dos homens, animais e campos e às Matronalias, festa
dedicada às mulheres que nestas datas tinham poderes especiais sobre
os homens!
Quanto à origem Grega provém das festas em honra de Dionísios, Deus do
vinho e da inspiração.
É com o aparecimento da cultura cristã que o Entrudo nos aparece como
celebração fortemente ligada ao período abstinencial imposto durante o
período da Quaresma.
Outras etimologias são atribuídas à palavra carnaval: uma Italiana "Carnevale"
isto é proibir a carne, em período de quaresma; uma outra origem celta
ou germânica, ligada aos " Carrus Navalis" isto é, barcos com rodas,
apresentação tão querida dos romanos que passeavam assim o seu
"Carnaval".
Seja como for o Entrudo ou Carnaval seria uma festa cujo significado e
vivência estará sempre de acordo com a cultura de cada povo.
Representando um subconsciente colectivo, não deixa de ser, também,
uma festa de liberdade, onde tudo é permitido fazer-se, e onde
preceitos e costumes se esquecem para permanecer durante três dias o
quase "vale tudo".
Válvula de segurança do sistema de poder ( cansados da vida rotineira
de um ano), há um clássico abrandamento da autoridade no Entrudo
sempre mais atenta à problemática social que às manifestações lúdicas
e festivas.
Por isso, as máscaras, a censura popular e a moda colectiva de se
parodiar toda uma existência satirizando-se, ridicularizando,
causticando, virando-se, praticamente, tudo do avesso: os homens viram
mulheres; as mulheres, homens e a máscara é a caricatura da própria
vida local.
No Alto Minho, felizmente, o Carnaval vai-se mantendo em todos os
Concelhos com os tradicionais corsos. Porém, a tradição obriga-nos a
ir até ao Lindoso (Ponte da Barca) e, ai, assistir aos cortejos
imemoriais do Pai Velho.
Pai Velho
Quem é este Pai Velho? Uma espécie de despedida do Inverno e o
acolhimento à Primavera que está a chegar? Recordação das festas dos
"loucos medievais", colocando um ponto final ao tempo de excessos que
precedem a Quarta – Feira de cinzas ? O rito da fecundidade estimulado
por uma nova seiva que vai surgir após as longas noites do solstício
do Inverno?
O cerimonial mantem-se quase com os mesmos ingredientes medievos que
encontramos na "Vaca das Cordas", ou na "Procissão do Corpo de Deus",
em Monção com a tradição do Boi Bento, do Carro das Ervas, do Dragão e
do S. Jorge, ou na Senhora D’Agonia com os seus Gigantones e
Cabeçudos. Cumpre-se a tradição em Terras do Lindoso, sempre na época
do Entrudo, nos lugares de Castelo e de Parada. Em dias de Domingo
Gordo e Terça – feira de Carnaval .
Em frente aos espigueiros e à eira comunitária, tendo como cenário o
Castelo Medievo, o busto de madeira do Pai Velho transportado num
carro de bois, seguido de outro carro de bois, Carro das Ervas,
engalanados, com a chiadeira habitual, tilintando de campainhas e com
as cangas ornamentadas de monelhas, ramos de flores em cada chifre; à
frente a lavradeira, camponesa rústica qual loura Ceres ( Deusa da
Fecundidade), bem ourada com os cordões das avós; atrás as rusgas de
concertinas, bombos, ferrinhos e castanholas e a que não faltam as
máscaras dos mais foliões… eis os cortejos de Domingo Gordo no lugar
do Castelo, depois da missa (11.00 horas ) e, da parte de tarde, no
lugar de Parada (14.30 horas), com idêntico cerimonial. Tudo se
esconde até terça – feira de carnaval onde idênticos cortejos se
realizam ainda com festa mais rija, para terminar depois dos
bailaricos, nos dois lugares, com o enterro do Pai Velho, cerca da
meia noite, em que se atinge o clímax do ritual colectivo concretizado
na queima do boneco de palha e a leitura do seu testamento. Pai Velho
que não despensa o "seu" ritual gastronómico em dia de Domingo Gordo.
E são os rapazes e raparigas que cantam os Reis que tem a obrigação da
ceia composta pelo tradicional cozido onde não faltam a orelheira,
salpicão de fumeiro, tracanaz de presunto (e o que lhe davam mais), os
chispes (unhas de porco) e o focinho do reco.
Se lhe acrescentarmos umas boas costelas barrosãs e um pé descalço,
mais umas chouriças de cabaço, ai temos o cozido do Lindoso em honra
do Pai Velho: duas travessas fumegantes a rescender a sabores de
salgadeira, da vezeira e do quinteiro: a das carnes; outra com
batatas, cenoura e couve galega; o alguidar tortulho com arroz branco
e rodelas de chouriça, paio e salpicão, tudo acompanhado de um verde
tinto a deixar nas malgas vidradas uma velatura de musselina rósea.
E as grâ - mestras da cozinha do Lindoso a dizerem-me prazenteiras e
sorridentes: bom proveito, que lh’apreste. Cá fora, no terreiro do
Castelo as concertinas e as vozes diziam :
A tarde foi para cantar e dançar
"O Carnaval de Lindoso
É o melhor do Concelho
Todos gostamos de ver
O enterro do Pai Velho"
Ass: Gracinda Amorim
"Lindoso terra bonita
Onde se colhe bom Pão!
Festejam o Carnaval
Que não acabe a tradição!
"Pai Velho Não Morras!"
O Presidente da RTAM
Dr. Francisco José Torres Sampaio*
* Ilustre e
prestigiado gastrónomo, Juiz da Confraria dos Gastrónomos do Minho,
Presidente da Região de Turismo do Alto Minho, docente e investigador,
excelente comunicador, altamente considerado por todos os membros das
mais diversas Confrarias.
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